(foto de Matheus Casagrande,
o guri argentino)

(Para Neide e Odilon...)
Domingo. Passava pouco das seis da tarde. Eu estava trabalhando e não tinha almoçado. Fui jantar "com as galinhas", como se diz. No caminho entre a redação e o refeitório dou de cara com uma lua lindíssima. Brilhante mais que o normal e trazia junto de si o planeta Vênus. Fiquei extasiada. O céu ainda estava claro e a imagem me fez ficar longos minutos observando. No final do jantar, a noite já vestia seu manto escuro e a beleza do satélite e do planeta estava ainda mais forte.
Voltando ao posto de trabalho, entre a tristeza de contabilizar sete mortes entre afogamentos, homicídios e acidentes na região num único fim de semana e o impasse da situação na Síria, o telefone toca.
Não era um novo incêndio nem reclamação. A leitora do outro lado, Neide, que durante a conversa descobri ser uma colaboradora da coluna Corujice, queria apenas compartilhar do seu êxtase em observar a lua e declarar que nunca havia visto o astro tão lindo. "Seria muito lindo ver uma foto da lua de hoje no jornal", ela sugeria.
Pedido mais do que acatado. Eu já havia pedido a mesma coisa ao fotógrafo que nos acompanhava na edição. Neide se despediu dizendo estar feliz por ter conversado comigo. Eu também estava, e muito.
Poucos minutos depois, outro telefonema. Desta vez o leitor se chamava Odilon. Eu não o conheço, nem de nome, nem de voz (sim, eu tenho uma memória para vozes que supera minha memória de rostos, creia) e Odilon fazia a mesma observação que Neide: a beleza singular da lua naquela noite de 8 de setembro.
Depois de Odilon pelo menos mais cinco pessoas ligaram para o jornal com o mesmo propósito, mas não sei seus nomes, porque a ligação não foi recebida por mim.
Que lua era aquela que fazia com que as pessoas sentissem necessidade de compartilhar sua visão? Eu mesma ofereci aquela imagem como um presente naquele fim de plantão.
E muitos pensamentos me passaram pela cabeça. Tenho alguns poucos leitores que de vez em quando ligam ou escrevem para contar novidades, corujices, repartir suas vidas comigo. Confesso que isso me alimenta a alma. Alguns muitas vezes se queixam, me puxam a orelha, sentem falta da coluna Gentileza gera Gentileza, desejam que os textos sejam compilados num livro, reclamam que temos cachorros demais no Ela. Outras vezes, ligam para contar que serão avós mais uma vez, e claro, a maioria das vezes ligam para sugerir pautas que acabam por virar matérias.
Mas nunca me passou pela cabeça que chegaríamos a um estágio de gentilezas que uma pessoa ligaria para o jornal para compartilhar com o maior número de pessoas a visão única de um satélite iluminado por uma estrela em alinhamento com o planeta Vênus. Falando assim, parece coisa fria, mas basta mudar as palavras e tudo fica lindo: a lua sorria no céu e uma estrela parecia uma pinta na face da noite. Pura poesia.
Pedi ao meu filho para fotografar e ele me disse que já tinha feito isso, porque a lua estava bela demais.
Mais tarde, em casa, conversamos por longas horas sobre o fenômeno astronômico, mas muito mais sobre o fenômeno que se apossou de Neide, Odilon e todos os outros.
E de sua juventude veio uma resposta inesperada: "Mãe, as pessoas estão se importando cada vez mais com as outras, as pessoas estão olhando para o céu, nós estamos olhando para o céu, nós estamos desejando compartilhar coisas belas com os outros. Isso é significativo demais!"
Admiro sempre o poder dos jovens, o desejo de mudar o mundo e a luta contra o individualismo em que muitos estão inseridos; mas sei que Neide e Odilon não são mais tão jovens, nem eu tampouco. Então volta a pergunta: o que aconteceu durante aquele alinhamento entre Vênus e a lua que fez com que as pessoas alertassem às outras sobre aquele momento? Isso é comum e eu nunca percebi ou realmente meu filho tem razão e as pessoas estão mais conectadas, olhando mais o céu e menos a TV?
Se você não viu a lua de domingo, existem centenas de fotos espalhadas por aí mostrando a beleza observada por Neide, destacada por Odilon. A que ilustra a coluna estava entre dezenas tiradas pelo meu filho. Mas creio que não há fotografia que se compare ao silêncio provocado pelo momento.
Faço a você um convite que fiz a mim mesma naquela noite: quando nos depararmos com algo belo, que tal compartilhar? Em contrapartida: que tal deixar de lado cenas grotescas, fofocas e preconceito? É um desafio, mas um desafio delicioso.
Publicada na edição de 13/09/13 do Jornal Cruzeiro do Sul.