terça-feira, 9 de abril de 2013

Judas, esse meu desconhecido...


Judas, esse meu desconhecido

Estela Casagrande


 
Tenho verdadeira paixão por histórias. Todas as histórias. Quando criança, na falta de muitos livros em casa, li os evangelhos, um velho volume com ortografia ultrapassada encapado naqueles papéis usados em corte e costura. Lembro que, na minha inocência, morria de inveja de Jesus porque ele tinha genealogia. Lucas delineava a linhagem até chegar em Adão, enquanto a minha se perdia logo após meus bisavós, vejam só. Mas assim que tive discernimento para pensar, uma das coisas que mais me deixava incomodada na história e nas diversas interpretações que faziam dela era o episódio em que Judas traía Jesus, arrependia-se e se enforcava. O Jesus de Nazaré, de Zefirelli, deixou-me ainda mais apaixonada pela história ainda com mais perguntas.

No último sábado foi possível observar por todo o país manifestações chamadas de "malhação do Judas", onde bonecos são espancados, queimados ou mesmo estourados. Não me parece combinar com nenhum dos ensinamentos do homem Jesus, espancar pessoas, mesmo para quem não o acredita divino.

Pois quando vejo imagens da "malhação" sempre vejo crianças participando com bastante entusiasmo, com sorrisos no rosto e paus e pedras nas mãos. Crianças imitam tudo o que veem, crianças seguem as tradições dos adultos, crianças repetem o comportamento de quem as educa, isso sabemos há tempos. A pergunta que me fica é: se numa idade em que elas ainda nem conhecem a história de Jesus e suas simbologias, são incentivadas a malhar um boneco, muitas vezes com máscaras de pessoas do cotidiano dos telejornais, como podemos afirmar que não as estamos educando para a violência?

Jesus, um homem que pregava a não-violência, não merecia tal "tradição".

Nunca fui - em criança - numa malhação de Judas, nunca levei meus filhos a sequer observar. Todos os dias faço uma força danada para praticar a não-violência com atos ou mesmo palavras que podem ferir as pessoas (e não é fácil) e algumas tradições como touradas, farra do boi e comemorações com fogos de artifício me deixam estarrecida.

Vira e mexe alguém emite opinião sobre a relação dos jogos de computador com a violência das ruas, mas esquecemos de violências cotidianas de que somos protagonistas e - como a malhação do Judas -, que incentivamos e mantemos.

E entre tantas dúvidas que trago à você, leitor, fica um desejo muito antigo, dos tempos de criança. Eu sempre desejei que Jesus tenha perdoado Judas, e que ele tenha se retratado. E hoje desejo que as crianças que este ano malharam o Judas, no ano que vem, e no outro e no outro, perguntem-se: por que estou fazendo mesmo isto?
(Publicado na coluna Cosmovisão em 05.04.2013)

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