terça-feira, 9 de abril de 2013
O primeiro passo é o mais difícil
Estava quase dormindo. De repente, senti que meu coração ia parar, depois acelerou. Tentei racionalizar, mas a irrigação do cérebro ficou prejudicada e eu só conseguia me emocionar. Senti falta de ar.
Ia morrer e não conseguia nem ao menos pedir socorro.
Fiquei paralisada. De medo e de saber a morte tão próxima. Não sei quanto tempo durou. Poderia ter sido meia hora ou cinco minutos, ou nem isso.
Quando finalmente tudo se acalmou, percebi que estava molhada de tanto suor. Levantei, tomei um copo de água e decidi que tinha tido um pesadelo.
Mas estava enganada.
Passou alguns dias e tive a mesma sensação de novo.
A morte chegava. Da mesma forma.
Mas em vez de me levar de vez, ficava a me rondar, rodopiava ao meu redor, desfalecia meu coração, tira-me o ar, esganava-me a garganta, tirava-me horas de sono e no dia seguinte eu acordava.
E no outro, e no outro e no outro.
Só procurei um médico - cardiologista, claro - quando senti que estava cansada das danças da morte. Decidira que preferia morrer de uma vez do que morrer todos as noites e amanhecer viva.
Depois de uma dezena de exames, lá estava eu, mais saudável do que um bebê, pressão, colesterol, tudo, tudo, tudo mesmo, normal.
Impossível.
Sou cardíaca, tenho certeza. Sinto taquicardia, suadouro, falta de ar quase todas as noites. Os exames estãoerrados.
Não estavam.
Eu estava despreparada para ouvir o diagnóstico.
Síndrome do Pânico.
Aquela doença que tá na moda? Prima-irmã da depressão? Conselheira do suicida? E que não tem nada a ver com coração? Obrigada, eu passo.
Mas ela não passa. Não sem tratamento, não sem acompanhamento, não sem coragem.
Fiquei feliz, se fosse coração seria pior. Se precisasse de cirurgia eu enlouqueceria. Se eu demorasse mais para procurar o médico podia perder o emprego, a família, ou mesmo a vida, se a crise acontecesse de novo no trânsito.
O médico tinha voz calma. Chorei mesmo na sua presença. E ele dizia que eu não precisa ter vergonha ou medo do que estava sentindo.
Eu não estava só, de diversas formas. Primeiro porque até há alguns anos a medicina nem saberia cuidar dessa doença. Segundo, porque muitas pessoas passavam naquele momento pela mesma situação que eu.
Mas um cardiologista não era o médico mais indicado para o meu caso. Então ele falou a palavra feia: psiquiatra. Médico de louco, pensei. Eu, tenho que ir procurar um médico de louco. Nem morta.
Mas era preciso, caso eu não quisesse encontrar a mesma morte todas as noites, minando-me o corpo e e mente.
Receitou-me um medicamento simples. Apenas pra me aliviar um pouco, me acalmar para a próxima batalha.
O resto era comigo.
Por último, perguntou-me se eu tinha alguma fé. Diante do meu silêncio, (não dizem que quem cala, consente?) indicou-me para ler a Bíblia. Mandou-me porém ler apenas os textos alegres, felizes, salmos ou o próprio evangelho. Que eu me afastasse das palavras tristes, das passagens com batalhas sangrentas, mortes e vinganças.
Que eu fizesse exercícios físicos também. Quem sabe caminhadas, solitárias ou acompanhadas de alguém que não fizesse perguntas demais, nem falasse coisas tristes.
Quando saí para a rua, a tarde tinha se feito noite e eu chorei e chorei e chorei.
Eu estava com síndrome do pânico! Doença que é citada nas rodinhas de conversa com mãos na frente da boca. Minha prepotência negava-se a aceitar essa doença. Enquanto aviava a receita na farmácia, chorava e chorava. Não sei porque contei para a balconista da farmácia.
Eu nunca tomei remédio tarja preta. estou ficando louca, pensava ou dizia - nem sei ao certo.
Foi quando ela disse: Eu tive.
Parei de chorar. Eu tive há dois anos, ela continuou, é só se cuidar, procurar ajuda e vai ver como passa. Não é o fim do mundo.
Agradeci e sai.
Na soleira da porta mesmo, enchi bem os pulmões, uma, duas vezes.
Repeti a frase da moça. Não é o fim do mundo.
E dei o primeiro passo.
(publicado em 22 de março de 2013)
Estela Casagrande
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